segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Um dia cinza em Porto Alegre...

Sabe aquele dia que não precisava existir, aquele em que o destino aplica, não só um, mas dois golpes... hoje está sendo este dia.
Um dia nublado e chuvoso, levantei tranquilo... o peso sobre meus ombros era devido ao final de semana forte em Caxias, mas nada que me fizesse perder a força das pernas. Chego no trabalho como sempre, gritando... fazendo as pessoas com quem eu trabalho rirem alto, as 9h da manhã... eles ainda brincam comigo: 'ó, hj ele ta de bom humor', me sento e começo a trabalhar. Alguns trabalhos depois, ainda pela parte de manhã recebo uma ligação do meu pai, ele não tinha ido ao jogo do Inter... então pra que estaria me ligando? Recebo a noticia de que meu avô tinha falecido, o vô Careca, como ele era conhecido na família. Conversei com o meu pai durante alguns minutos, não tinha o que fazer... só aceitar o fato, ele já estava sendo velado em Gravataí e logo seria cremado, para que suas cinzas fossem jogadas em Mariluz.
Nitidamente afetado com a notícia, o clima toma conta do ambiente, não tinha como... todos ouviram a conversa. Tentei disfarçar, mas ainda não acreditava que meu avô tinha ido descansar. Pensei um pouco em minha avó que também está doente, em meus pais... sabendo que eles estavam lá para cuidar deles e isto, acontece. Dei um tempo no trabalho, olhei algumas coisas... achei uma foto dele, estava bem, como poderia ter acontecido? Tentei esquecer o fato, mais alguns minutos e já estava chegando ao meio dia: 'isso vai passar'.
Saí, com a cabeça baixa, pensando um pouco na vida... nos pais, de como que a gente percebe o valor das pessoas, de tudo, só quando a gente perde... de ouvir eles falando 'quando que tu vai voltar?' quantas vezes eu ouvi isso...
Almocei quieto e assim voltei para o trabalho. Cheguei, sem palavras... só me sentei e comecei a ouvir música, esquecer... era isso que tentava fazer. Ao longo da tarde, fui me acostumando, só que ela não acabaria assim.
MSN ligado, esperando algum contato do meu pai, quando o Julinho entra e me da a cartada final, o Jaça, pai de meus dois grandes amigos, também havia falecido. Soltei todo o ar que estavam em meus pulmões, fechei os olhos... um calor tomou conta do meu rosto e um frio na espinha como se o fio de uma navalha estivesse passando em minhas costas. Minhas mãos tremiam...
Não me contive, levantei e avisei que estava indo dar uma banda, não conseguia ficar ali dentro.
Com o olhar perdido, saí procurando a única coisa que poderia me deixar calmo, uma carteira de Marlboro e uma dose de whisky bem forte. Encontrei, caro, mas encontrei... levei minha dose de Black Label e meu Marlborão pra passear no parque enquanto uma garoa caía sobre minha cabeça. Andando pelas ruas, fiz meu primeiro brinde a eles, olhei pra cima e aquela garoa molhava meu rosto, como se fosse a mão de uma mãe que afagava o coração de um filho.
Procurei um lugar sem pessoas, queria aquele momento só pra mim, sentei debaixo de uma árvore, já com um cigarro aceso... conversava sozinho, tentando arranjar explicação para aquele dia. Olhava para os lados... e me deparei com uma criança que se divertia em um balanço, com uma formiga que carregava uma folha, com pássaros a minha volta que se empuleiravam no galho de uma árvore, com um casal de namorados... olhei para o cigarro e o copo de whisky que me confortava... e sorri, sorri não por estar feliz, mas entendi que cada coisa que acontecia, de uma forma indireta é igual a nossa vida. As vezes carregamos o dobro do peso em nossas costas, mas perseveramos... podemos simplismente bater as asas e voar, livres... nos divertir e amar plenamente, aproveitar as coisas boas que temos, mas sabendo que isto tudo, um dia vai acabar. Somos seres humanos, errando ou acertando... humanos. Fiz meu último brinde e tomei o último gole... dois cigarros apagados, um pra cada um, ta bom, os dois gostavam de um cigarrinho e de um trago.
O parque estava ficando vazio, a garoa começou a virar chuva e parecia que ela me dizia, vai, que agora é a tua vez. Saí leve, comecei a lembrar de tudo o que tinha acontecido enquanto estava na presença de meu vô Careca e do Jaça, dos churrascos, dos jogos do Inter, dos causos que tinham para contar, das experiências que tive com eles. Não lidava com a perda, pois não tinha perdido eles, eles estão dentro de mim, nas melhores lembranças, e é isso que poderemos levar para sempre.
Hoje eu não choro, mas estou realmente triste, muito triste, por saber que meus amigos hoje perderam o seu melhor amigo, e eu, meu avô, figuras paternas que estarão sempre ao nosso lado e que estarão torcendo por nós, por dias melhores. Poderia ter tomado um último trago, ter conversado mais, dado um último abraço? Não sei, mas o que realmente poderia ser melhor, do que poder viver uma vida?
Adeus, meus grandes e eternos amigos, pois agora, nós continuamos a nossa por aqui.

Hoje é um dia cinza em Porto Alegre...


Diego Sanches